quinta-feira, 11 de outubro de 2018

despedida


Deixo o mar para trás, as ondas que arrebentam na areia trazem no vapor seco um olhar que se perde. Me perde,outra vez, essa paisagem que se esconde entre a escuridão e o negro profundo dos planetas, mas entre os murmúrios das vidas que habitam o gás, lembro dos sons, esses sons que me invadem, me encontram. Lá fora, rubor do sol se esconde entre o cimento e eu me afasto lentamente, assistindo as águas lavarem a saudade e fecundar, como o homem que nasceu do mar, o amor, que em ressaca transborda e nas ondas retorna, para junto de mim.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Vagalume


Ficcionalizando meus eus
Estou diante de uma casca
Que range e é purulenta
E que protege um profundo pântano lúgubre
E no meio das plantas rasteiras
Pequenos vagalumes voam
Corporificam a luz lamacenta
E não mostram caminho algum
Apenas seguem para o mais escuro
E esperam
Que suas existências
Tenham algum sentido.

terça-feira, 22 de maio de 2018


Para Juliana

Mãos que se entrelaçam sem os dedos
Agarram braços prostrados
O corpo brota na pele...
Pústulas.
Passos sem pernas que caminham
Esconde no casulo...
Escuro.

Boca mansa que amansa
Dança no baile só.

Joelhos tremem doentes
Dói, mói, digere e cospe.
Náusea.

Tripas enfiam raízes
Profundas terras
Ternas serenas...
Germinam.

- Eu não sei mais escrever sobre o amor.




segunda-feira, 30 de abril de 2018



Imensidão escura
Um corpo estático
Os olhos abertos
A  ampulheta reluzente
Mostra o tempo
A areia escorre lenta
A boca escancara
A voz não tem som
O peito pesa
As pernas não se movem
Vê o tempo
Percebe o tempo
O futuro
O passado
O presente
As memórias
E
As palavras não ditas
O silencio e o vazio.


“Como lidar com a impossibilidade de alcançar o outro?” (Carola Saavedra)

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Lete


Me deparo com o impulso traiçoeiro
O esmero das pernas-aranhas
Que tecem mapas dilúvios
Que naufragam em dia ensolarado
À margem de uma ilha às vistas
Não desço do barco de papel
Me deixo empapar com as correntes
Me torno machê
Matéria prima
Escorrego por entre tuas mãos
Me torno em um outro
Até desaparecer na ilha
Depois do crepúsculo
Me torno o instante ínfimo
Que o dia e a noite se enraízam
e que no amanhã,
O  momento desaparece
Pois as memórias são como as
teias
São concatenadas e milagrosas
Mas quando são incômodas
Limpamos
E cada vez que se auto reconstroem
Nunca mais são as mesmas
Até que um dia
As pernas-aranhas se imobilizam
Cansadas, se sentam
E esperam o dilúvio de mnemosine.




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Poema existencialista

Palavras antes ditas
por bocas mudas
ressoam estrondosas, claras
fazendo parte do que
constitui um eu

Agora ouvidas, são esquecidas
no momento da enunciação,
jamais sendo moldadas
por padrão circular,
carimbadas desajeitosamente
sobre a superfície plana

A Palavra molda
minha boca sem voz,
transfigurando a imagem
em vísceras, retornando ao 
prefácio natimorto depois do 
palavreamento sucateado

A percepção formal
intrínseca à um universo individual,
desassocia-se de uma 
concretude Verdadeira

A mutação curvilínea e
viciosa atinge a memória da 
Palavra, extinção de facetas
que abortam depois do nascimento,
um eu que almejou ter uma voz.